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04/03/2010

Buñuel

Dedê Ranieri

No segundo ano da faculdade eu conheci o Cadu. Calouro jeitão low profile, que de manhã estudava direito e à tarde história na USP.
 
Os amigos em comum deram um jeito de acelerar a aproximação. Ele era a "minha cara", juravam. E eu pensava que raio de cara eu devia ter pra ser a cara de um garoto que adorava rock pesado e usava uma pochete do tipo camuflada (abafa!).
 
Cheguei a ficar ofendida. Hard rock tudo bem, ainda que fosse de domínio público que eu era uma garota-suuuuper-mpb, mas pochete já era demais.
 
Daí me explicaram que não era ofensa, nem piada. Que apesar desses detalhes insólitos e da cabeleira à la Ricardinho Mansur (época em que não era nada cool ostentar uma cabeleira à la Ricardinho Mansur, diga-se), o Cadu era um cara incrível e tal. E AMAVA CINEMA. Esse era o grande ponto em comum. O CINEMA.
 
Nesse período eu tinha fama de amante da sétima arte, lenda essa que surgiu a partir do dia em que fui flagrada assistindo um iraniano até o fim.
 
Além disso, o fato de ir ao cinema toda semana aliado à minha tagarelice crônica deu origem a uma campanha tão enganosa, que a certa altura o Cadu já tinha certeza de que quando o Rubens Ewald Filho passasse dessa para melhor, eu seria a próxima comentarista do Oscar.
 
E eu, ao invés de dizer simplesmente que nossos amigos usavam tal pretexto como método de aproximação, não! Preferi manter a pose de sabichona.
 
E a coisa foi ganhando uma proporção tal que as abordagens do Cadu, invariavelmente, tinham o cinema como tema central.
 
Logo, além das toneladas de códigos, tratados, constituição federal e afins que os professores despejavam semanalmente em nossas cabeças universitárias, passei a ter mais uma tarefa: saber tudo que se passava no mundo do cinema. A próxima estréia, o indicado ao Urso de Ouro, de Prata, de Bronze. E ainda formatar alguma opinião sobre o maldito movimento Dogma 95 que surgiu bem nessa época pra ajudar.
 
Daí virou paranóia. Não bastasse a necessidade de atualização diária, me meti a zapear desde o mudo Chaplin até os principais diretores do movimento francês nouvelle vague. Claro que não dava pra parecer entendida sem citar Truffaut Godard e cia (além do que não tem testosterona que resista a um n-o-u-v-e-l-l-e v-a-g-u-e dito assim baixinho, ao pé do ouvido).
 
Eu estava fazendo a lição de casa direitinho, quase esquecendo o grau de superficialidade dos meus conhecimentos (hora em que a carne se trai).
 
Até que um dia fui com o Cadu ao Espaço Unibanco e por lá a farsa teve fim. Na hora de escolher la película, perguntei o que ele achava do filme "Buñuel". Estava lá, escrito em letras garrafais, SESSÃO DAS DEZ: BUÑUEL.
 
Ele me olhou confuso e explicou que Buñuel não era um filme, mas um dos grandes cineastas espanhóis (como eu não sabia? não tinha visto a bela da tarde? o discreto charme da burguesia?!), que durante toda semana seriam exibidos filmes do Buñuel (daí o cartaz), que a turma da história da USP não perdia uma sessão de Buñuel etc etc. E dizia isso tudo pronunciando Buñuel de um jeito diferente do que eu tinha falado. Ou seja, do jeito certo.
 
Era um momento de sublime desmoralização, daqueles em que você não sabe se pede um café com limão ou assovia New York New York em francês.
 
Mas toda essa encenação não impediu que eu namorasse o Cadu durante os quatro anos de faculdade. Ao contrário. Sempre ríamos muito dessa história, e vez ou outra ele até pedia pra relembrar do movimento n-o-u-v-e-l-l-e v-a-g-u-e no pé do ouvido.


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de: Johnny na Babilônia | johnny@mundomundano.com.br
hahahah! Deixe-me contar dois "causos" engraçados. Quando eu estava no primeiro ano da faculdade, uma menina, que se julgava "a inteligente", foi fazer a apresentação do trabalho dela. Falou, falou, falou. Uma hora, ela lança a seguinte pérola: "...esse entendimento é corroborado pois dois famosos filósofos espanhóis: Ortega y Gasset" kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ok, ninguém tem obrigação de saber que "José Ortega y Gasset" é UMA só pessoa. Unzinho só! kkkkkkkk Ri demais..... na cara dela. “bvio. Na verdade, gargalhei.... quem me conhece sabe que eu não me controlo nessas horas.... kkkkkkkk Outro "causo": - Trabalhava no meu escritório um cara muito gente boa, muito competente, mas que faz o tipo "bombado de academia". 100% músculo. 0% cérebro. Ele sabe tudo da área dele. Mas não pergunte quem é Abraham Lincoln, Kafka, Lenine, que ele nunca ouviu falar. Consegue imaginar a peça? Pois bem, também tinha uma menina, uma gracinha, linda, inteligente, toda meiguinha e que não vive apenas naquele mundo corporativo. Ou seja, dá pra conversar de tudo com ela. Eis que nosso amigo-bombado-102 de bíceps, sempre dando em cima de nossa princesinha intelectual, começa a cantá-la logo de manhã cedo. Todo mundo rindo das investidas dele, até que ele solta a seguinte pérola: - Fulana, você tá tão linda hoje....você tá parecendo uma obra de arte! - Ah, é? Qual?!?!?!?! - Responde ela, incrédula. (Achando que ele tinha mudado). - Ah, sei lá....UM QUADRO DO PICASSO!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Maria-mãe-de-Deus! caí da cadeira de tanto rir! Passei mal mesmo....rolava no chão o dedo pra ela e gritava: TE ZUOU!!!! TE ZUOU, FEIO!!!!! Ela, puta da vida, só falava: - MEU FILHO?!?!?!?! VOCÊ JÁ VIU UM QUADRO DO PICASSO?!?!?!!? VOCÊ JÁ VIU O QUE ELE FAZ COM AS IMAGENS?!?!?! VOCÊ TÁ QUERENDO DIZER QUE EU TENHO CARA DE CUBO? QUE EU TENHO O CORPO DESPROPORCIONAL, OS OLHOS DE TOMATE, A CABEÇA DE BISTECA?!?!?!?!
de: Johnny na Babilônia | johnny@mundomundano.com.br
hahahah! Deixe-me contar dois "causos" engraçados. Quando eu estava no primeiro ano da faculdade, uma menina, que se julgava "a inteligente", foi fazer a apresentação do trabalho dela. Falou, falou, falou. Uma hora, ela lança a seguinte pérola: "...esse entendimento é corroborado pois dois famosos filósofos espanhóis: Ortega y Gasset" kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ok, ninguém tem obrigação de saber que "José Ortega y Gasset" é UMA só pessoa. Unzinho só! kkkkkkkk Ri demais..... na cara dela. “bvio. Na verdade, gargalhei.... quem me conhece sabe que eu não me controlo nessas horas.... kkkkkkkk Outro "causo": - Trabalhava no meu escritório um cara muito gente boa, muito competente, mas que faz o tipo "bombado de academia". 100% músculo. 0% cérebro. Ele sabe tudo da área dele. Mas não pergunte quem é Abraham Lincoln, Kafka, Lenine, que ele nunca ouviu falar. Consegue imaginar a peça? Pois bem, também tinha uma menina, uma gracinha, linda, inteligente, toda meiguinha e que não vive apenas naquele mundo corporativo. Ou seja, dá pra conversar de tudo com ela. Eis que nosso amigo-bombado-102 de bíceps, sempre dando em cima de nossa princesinha intelectual, começa a cantá-la logo de manhã cedo. Todo mundo rindo das investidas dele, até que ele solta a seguinte pérola: - Fulana, você tá tão linda hoje....você tá parecendo uma obra de arte! - Ah, é? Qual?!?!?!?! - Responde ela, incrédula. (Achando que ele tinha mudado). - Ah, sei lá....UM QUADRO DO PICASSO!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Maria-mãe-de-Deus! caí da cadeira de tanto rir! Passei mal mesmo....rolava no chão o dedo pra ela e gritava: TE ZUOU!!!! TE ZUOU, FEIO!!!!! Ela, puta da vida, só falava: - MEU FILHO?!?!?!?! VOCÊ JÁ VIU UM QUADRO DO PICASSO?!?!?!!? VOCÊ JÁ VIU O QUE ELE FAZ COM AS IMAGENS?!?!?! VOCÊ TÁ QUERENDO DIZER QUE EU TENHO CARA DE CUBO? QUE EU TENHO O CORPO DESPROPORCIONAL, OS OLHOS DE TOMATE, A CABEÇA DE BISTECA?!?!?!?!
de: DD |
praticamente a 171 do amor, Diogo. rss bjs!
de: Diogo | diogoduarteparra@yahoo.com.br
Eu não resistiria a um "n-o-u-v-e-l-l-e v-a-g-u-e dito assim baixinho, ao pé do ouvido"... Sorte do Cadu. Azar do Buñuel e dos outros.
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